De meus ossos fareis cinzeiros
Novembro 18th, 2006Suas crianças cresceram rápido e nisso nada há de espantoso, dado que todas as crianças crescem muito rápido ou todos os adultos envelhecem celeremente, a opção que lhe pareça mais literária. O fato é que, vista de perto, a família soava verossímil demais.
O pai, que é quem nos interessa nesta história, era desses homens que se descobrem sùbitamente rejuvenescidos e joviais às portas da sexta década de vida. Conhecera a mãe, vinte e tantos anos mais nova, pouco depois de se desquitar de uma argentina grosseira que não depilava as pernas nem o buço, não podia ter filhos e vivia reclamando de Porto Alegre e das maneiras rústicas das pessoas do lugar.
Compraram uma casa em Ipanema a uma quadra do rio assim que o médico diagnosticou a gravidez da mulher. Por alguns anos, enquanto chegavam mais crianças, quatro no total, e o escritório prosperava, ele se desdobrava na idéia de que, além de pai, deveria ser o avô dos próprios filhos. Contava-lhes histórias de sua própria autoria, montou uma pequena oficina nos fundos da casa apenas para consertar-lhes os brinquedos quebrados, aprendeu rudimentos de eletrônica em revistas especializadas e bolava brinquedos personalizados para os filhos, nunca ralhava com eles, atrevia-se, enquanto pôde, a participar de todos os folguedos infantis que inventavam. Chegou a quebrar o pé numa partida de futebol em que o mais velho - e mais afoito - dividiu a bola com o pai com mais força do que seria de se esperar numa pelada caseira. Adoravam o homem e mesmo quando os colegas o confundiam com um avô, na porta da escola, nunca deram bola para isso. Menos a caçula, que odiava quando os colegas caçoavam da idade avançada do pai.
Nos verões ele enchia a Marajó cinza de crianças, víveres e dois cães pastores e partia rumo ao litoral, abandonando o escritório nas mãos dos empregados pelos três meses que duravam as férias dos filhos. Duas ou três vezes, quando os fui visitar na casa de praia, em meio às baforadas da roda de pôquer, ele pedia silêncio para que não acordássemos as crianças, ainda que na última vez duas das crianças estivessem jogando conosco e já estivessem em idade de beber e fumar - o que faziam com alegria - e as outras duas crianças estivessem na festa na danceteria vizinha.
O filho mais velho, apanhado e preso duas vezes queimando maconha com os colegas nos arredores da faculdade, formou-se em jornalismo há pouco mais de seis anos. Depois de meses desempregado e renitente em abandonar a cidade que tanto amava, mudou-se para São Paulo e trabalha num portal de Internet desde lá.
A mãe morreu de um mal fulminante e não diagnosticado no atestado de óbito, pouco depois da formatura do primogênito. A menina mais velha casou-se com um argentino que conhecera quando tinha doze anos num dos veraneios com a família. Mora num subúrbio de Buenos Aires num condomínio dos anos 70 e nunca mais veio à cidade, nem nas festas. Numa das fotos que ele tirou com o primeiro neto os prédios perfilados ao fundo lembram um condomínio do Leste Europeu. A segunda filha, bióloga, estava nalguma expedição do Green Peace na Nova Zelândia, segundo se soube depois.
Acompanhei o enterro ao lado da caçula, semana passada. Quando empurraram o esquife para dentro do carneirinho e iniciou-se a calafetação do jazigo, sem qualquer emoção aparente a filha estendeu a mão para mim e agradeceu minha presença. Ofereci-lhe uma carona que ela agradeceu e dispensou com um sorriso apagado. Seguimos cada um para um lado enquanto os coveiros concluíam o serviço.
Entrei no carro e, antes de dar a partida, apanhei o bloco de anotações e rabisquei: “Ele parecia o monge das páginas iniciais da Viagem Sentimental: estava no mundo só para guardar lugar para alguém”.


