Na selva, na terrível selva
Dezembro 11th, 2006Há uma cena entre muitas outras fundamentais em As Invasões Bárbaras que poucos com quem converso deram o devido valor. A nora do moribundo Rémy, bela marchand de antigüidades para a Sotheby’s, aproveitando sua estada obrigatória em Montréal visita o depósito de uma igreja, acompanhada de um velho pároco. A congregação quer desfazer-se de alguns objetos e reabastecer suas arcas do vil metal.
Imagens e ícones empoeirados por todos os lados. O religioso pergunta-lhe o que há de valioso na coleção de quinquilharias. “Sinceramente? Nada.”, diz-lhe a jovem. O velho religioso, aproveitando que há alguém que lhe escute, desfia uma cantilena: “Não sei exatamente quando foi, mas em algum dia em 1966 as igrejas esvaziaram bruscamente”.
Prevendo o que aconteceria nas Igrejas em Montréal e no resto do mundo naquela feita, em 1962 Henri Salvador escreve Le Lion Est Mort Ce Soir, primeiro grande sucesso de seu selo independente. A música festeja a morte do leão, o dia em que todos os bichos se vêem finalmente libertos de suas angústias existenciais, da opressão, da autoridade - o dia em que o grande Deus de Abacuque, Absalão e Abedão é vencido e trespassado, pisoteado e lapidado, moído e lacerado até à ignonímia.
E tem lugar a monumental festa do caqui: Viens, ma belle, viens ma gazelle, le Lion est mort ce soir. Não posso dizer que a música não me emocione: nos anos 40, quando vi aquele jovem recém-chegado de Dunkirk que esbanjava vitalidade tocando humildemente no Cassino da Urca, sabia que seria ele o arauto dos novos tempos. Que as trombetas de Javé anunciem: O leão morreu. E por mais de quarenta anos todos acreditaram que o leão morreu.
Mas o leão, como alguns sabem, passa muito bem, obrigado, pergunta pela saúde da família e sempre manda postais de Montreux a cada trimestre e nas festas natalinas. Semana passada levou para passear um grande amigo de um grande amigo de um grande amigo meu. E, em toda ocasião em que isso acontece, eu lembro que o leão não morreu.