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O Porco Preto

Os nossos bielo-russos

Dezembro 1st, 2006

O Rio Grande do Sul não existe e mesmo assim é um dos poucos lugares inexistentes do mundo onde seus habitantes guardam insofismável orgulho de terem nascido nele. É tão estranho como numa hipotética situação em que você visse na rua um grupo de bielo-russos ou de vanuatuenses batendo no peito e gritando - por qualquer motivo - o quanto amam seu torrão natal. Ah, eu sou gaúcho!, exclamam em qualquer ocasião meus conterrâneos toda vez em que o orgulho pátrio esteja em causa. Qual orgulho pátrio, exatamente? O de ter nascido no estado da qualidade de vida, no estado da revolução farroupilha, no estado do parque da Redenção, no estado do Grêmio, do Inter e do Xavante de Pelotas, no estado do churrasco gordo feito de vacas velhas (pois ninguém ignora que a carne boa, cota Hilton, segue direto para a Europa do mesmo modo que a carne humana que exportamos tão alegremente para outros pagos). É um fenômeno tão curioso que até mereceria um estudo científico - se de fato o estado existisse para que despertasse tal interesse em algum sociólogo.

É o estado da Participação Popular, da União de Todos, dos monstrinhos engraçados que protegem as crianças, do Mario Quintana e da maior Casa de Cultura Mario Quintana do Mundo inteiro. Mario Quintana, um bom poeta que o país pouco conhece e que os gaúchos apreciam pelos motivos errados. É o estado das mulheres bonitas e liberadas que se vestem mal como índias guaranis. É o estado em que se chama um trem suburbano e fedorento de metrô. Em que carroças com animais esquálidos, seviciados e famintos transitam em meio aos carros atrapalhando o trânsito - pois é um pecado tirar o trabalho de um pobre. É o lugar onde todos têm uma aguçada sensibilidade social e conversam apaixonadamente e aos berros sobre política nos bares, enquanto bebem, bebem e bebem da pior cerveja produzida no país. Que, ao contrário da crença popular - e do comercial engraçadinho de tempos atrás - só não é exportada porque é intragável - coisa que só gaúchos e porcos (e nessa matéria posso opinar) são capazes de beber. E aos cântaros.

E ai de quem falar mal desse portento da inexistência planetária! Artérias saltarão dos colos inflamados e olhos sairão das órbitas dos gaúchos ofendidos, vermelhidões furiosas nos rostos, garrafas de Polar - tri-gelada, néam - voarão até os palcos dos artistas que cometerem heresia tal.

À pergunta sobre qual contribuição deram os gaúchos à humanidade para tanto orgulho resta um silêncio constrangedor. Nenhum grande cientista, nenhum grande escritor, nenhum nobel de medicina ou verdadeiro mártir da liberdade, nenhum político importante que tenha chegado ao poder pelas vias legais. E isso que este é o estado da Legalidade, vejam só.

O político que capitaneou o tal movimento da Legalidade, venerado por estas bandas mesmo sem jamais chegar à presidência (ver artigo abaixo), era um notório comedor de cocô: em sua passagem pelo governo do estado, além de miséria para os professores com suas brizoletas, apenas produziu discursos inflamados e vazios e uma imensa dívida pública que ainda hoje gera muito lucro aos seus credores e pobreza aos gaúchos. Sua aclamada oratória, uma sucessão de platitudes e diatribes inúteis, foi uma das grandes responsáveis por incitar os militares ao golpe que terminou provando-se uma medida extremada para um perigo puramente retórico. É claro que o populismo criollo de um Brizola ou de um Olívio Dutra são produtos de seu meio. Sem ouvidos que lhes dêem crédito, políticos dessa laia não prosperam. Apontar como culpado apenas o aspirante a ditador é como incriminar o esterco bovino e as vacas pela proliferação de moscas.

Além dos uruguaios, ninguém sabe onde fica o Rio Grande do Sul. Mas os vizinhos ao sul têm sobre nós a infinita vantagem de terem consciência de que não existem. E têm Juan Carlos Onetti, Artigas, Quiroga, Bartolomé Hidalgo, Juana de Ibarbourou, os irmãos Saraiva e mulheres que sabem se vestir para esfregar em nossas fuças orgulhosas.

Juana de Ibarbourou
Uruguaia típica.

Gaúcha em trajes típicos.
Gaúcha pilchada.

5 comentários para “Os nossos bielo-russos”

  1. Comentário número 1 por: adachi

    Mas será mesmo que isso só é pertinente aos gaúchos? Com a ressalva de alguns detalhes, penso nos cariocas, nos nordestinos, nos amazonenses e principalmente nos paulistas. Gabar-se por algo inexistente é podre, concordo, mas e quanto a gabar-se por outro motivo qualquer, mesmo quando real e palpável? Não existe nisso uma certa arrogância, egocentrismo e narcisismo? E os uruguaios é que são felizes.

  2. Comentário número 2 por: porcopreto

    Olá, colega, bem vindo, é uma satisfação, gostei de alguns de teus textos.

    Pois quanto à sua questão, falo da realidade que conheço, já me resulta difícil analisar os outros.

    Mas devolvo-te a pergunta: E de que se gabariam os amazonenses? Do rio que lhes cruza o estado? Mas em que são eles ou os bugios ou os tapires ou as formigas cortadeiras responsáveis por tal rio? E os cariocas? Que há no Rio de Janeiro de indígena e absolutamente derivado de seu povo e de seus hábitos que possa ser louvado como um italiano pode se gabar de Florença ou um mexicano de suas pirâmides?

    Me resta tão estranho o ufanismo. Mas falo só do que vivo de perto, para que não me acusem de mais leviandades do que as que perpetro por hábito.

    Um abraço, volte sempre. E desculpe a demora na resposta, sou por demais bissexto com esses assuntos tecnológicos.

  3. Comentário número 3 por: AnÔnImA

    Sou nordestina e morei no RS por um tempo. Pude ver bem de perto tudo o que foi dito aí no texto. Chega a ser ofensivo para os “forasteiros/estrangeiros” que vivem por lá. Percebia muita ignorância mesmo, desconhecimento. Acho que a maioria não tem dimensão do tamanho do Brasil e acha que o mundo se resume ao Rio Grande.

    É um fenômeno realmente curioso, é até engraçado…eu hein! Sem comentários!!

  4. Comentário número 4 por: Fabiano Otto

    É estranho mesmo, depois de ler esse texto eu reparei, como realmente o Rio Grande do Sul não existe! Nasci e vivi aqui e só agora reparei que realmente ele não existe, como fui tolo!!! Dancei em CTGs, cantei canções folclóricas, me embriaguei de história, indumentária, costumes e lendas para só agora descobrir que nada disso existe e, o pior de tudo, o centro do mundo não é Porto Alegre e os brasileiros não tão nem aí pra isso! É o fim!!!
    É verdade. O Rio Grande do Sul não existe. Tanto não existe que nem rótulo há para gaúchos, ou há? Presidentes com nome na história, além d Kubitchek, só teve o Getúlio Vargas, era paulista ou carioca? Luiz Carlos Prestes acho que era nordestino, sei lá, era comunista não era gente.
    Realmente merecia um estudo científico, um estado que não existe ser citado aqui com fúria. É curioso o vosso interesse nessa raça de inferiores que não existe. É uma caridade do Brasil manter esse estado em sua República.

  5. Comentário número 5 por: Marisol

    Me reí mucho con este texto, es muy bueno. Pero cómo que Rio Grande no existe. Yo creía que la Varig, que Ronaldinho, Jango Goulart, Elis Regina eran gaúchos. No me digan que no.
    Saludos de Uruguay donde se les quiere muito.

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