As mulheres à beira d’água
Dezembro 14th, 2006Agora não lembro se foi Ovídio em “Os Remédios para o Rosto da Mulher”, se foi Públio Calpúrnio em “Os Cremes Decorativos Imperiais” ou ainda Aulo Gélio em “Da Fortuna e do Opróbrio” que vaticinou: “Convém que a mulher, mesmo ao freqüentar um banho público, preserve seu natural recato”.
A sentença é de uma pungente atualidade, basta deitar os olhos sobre uma praia ou piscina ao redor. Como magotes de elefantas-marinhas, as mulheres banham-se ao sol e colorem-se da mais pura melanina.
Não há nada mais agradável ao olhar que uma mulher que saiba se comportar à beira d’água ainda que esta seja uma visão cada vez mais rara e inencontradiça por estas bandas. Visão tão rara quanto um durião florido no Jardim Botânico. Quod natura non dat Salmantica non praestat.

Elefantas marinhas com filhotes em banquisa nas Ilhas Geórgias do Sul.

Banhistas pegando um bronze em Capão da Canoa
Na selva, na terrível selva
Dezembro 11th, 2006Há uma cena entre muitas outras fundamentais em As Invasões Bárbaras que poucos com quem converso deram o devido valor. A nora do moribundo Rémy, bela marchand de antigüidades para a Sotheby’s, aproveitando sua estada obrigatória em Montréal visita o depósito de uma igreja, acompanhada de um velho pároco. A congregação quer desfazer-se de alguns objetos e reabastecer suas arcas do vil metal.
Imagens e ícones empoeirados por todos os lados. O religioso pergunta-lhe o que há de valioso na coleção de quinquilharias. “Sinceramente? Nada.”, diz-lhe a jovem. O velho religioso, aproveitando que há alguém que lhe escute, desfia uma cantilena: “Não sei exatamente quando foi, mas em algum dia em 1966 as igrejas esvaziaram bruscamente”.
Prevendo o que aconteceria nas Igrejas em Montréal e no resto do mundo naquela feita, em 1962 Henri Salvador escreve Le Lion Est Mort Ce Soir, primeiro grande sucesso de seu selo independente. A música festeja a morte do leão, o dia em que todos os bichos se vêem finalmente libertos de suas angústias existenciais, da opressão, da autoridade - o dia em que o grande Deus de Abacuque, Absalão e Abedão é vencido e trespassado, pisoteado e lapidado, moído e lacerado até à ignonímia.
E tem lugar a monumental festa do caqui: Viens, ma belle, viens ma gazelle, le Lion est mort ce soir. Não posso dizer que a música não me emocione: nos anos 40, quando vi aquele jovem recém-chegado de Dunkirk que esbanjava vitalidade tocando humildemente no Cassino da Urca, sabia que seria ele o arauto dos novos tempos. Que as trombetas de Javé anunciem: O leão morreu. E por mais de quarenta anos todos acreditaram que o leão morreu.
Mas o leão, como alguns sabem, passa muito bem, obrigado, pergunta pela saúde da família e sempre manda postais de Montreux a cada trimestre e nas festas natalinas. Semana passada levou para passear um grande amigo de um grande amigo de um grande amigo meu. E, em toda ocasião em que isso acontece, eu lembro que o leão não morreu.
A Tragédia dos Comuns
Dezembro 7th, 2006Há uma antiga lenda anglo-saxã que fala sobre uma tal Tragédia dos Comuns. O mundo germânico, cuja resistência à cristianização nos moldes romanos começou com o Arianismo e culminou com a Reforma de Martinho Lutero, sempre me chamou a atenção e esta lenda é particularmente saborosa.
Ela fala de um povoado medievo em que pastores de ovelhas dividem a mesma terra sem que haja limites ou divisas de propriedades entre eles. A espécie de comunismo primitivo que todo povo incivilizado e ignorante experimenta antes de conhecer as maravilhas do Camembert ou do pudim de laranja.
Pois a vila cresce e os seus filhos se multiplicam, como o bom velhinho bíblico ordenara, e crescem juntos os rebanhos, as pulgas e a falta de higiene. Com a expansão dos rebanhos aumenta a pressão sobre o único recurso natural de que dispõem, o pasto sobre a terra. “O que pertence a todos não é tratado com desvelo pois todos os homens dão mais importância ao que é seu do que àquilo que possuem em coletivo”, dizia um pederasta grego muitos séculos antes desta história. Mario Quintana, que os afeminados gaúchos amam citar, dizia que “filosofar resta inútil, não há nada no mundo das idéias que algum pederasta da Hélade já não tenha endereçado e resolvido”.
Nas contendas que se seguem formam-se dois partidos: os que preferem que se divida as terras em frações ideais e igualitárias e cada um cuide do que é seu e os que preferem que a comuna prossiga em seus modos igualitários de ser. Um partido tem seu Mário, outro seu Sila (que Alá esteja com ele).
Passam-se os anos e os homens da aldeia jamais chegam a um termo sobre os perrengues - em discussões intermináveis que deixariam os bizantinos roxos de inveja. Termina que qualquer outro pequeno desequilíbrio - não se sabe ao certo qual, pois que desta tragédia não resultaram sobreviventes - todo o povoado perece da mais pura e genuína fome, num exemplo de martírio apostólico romano capaz de render beatificações, fossem os mártires civilizados ou, vá lá, monges irlandeses.
É uma lenda pedestre e sempre rejeitada por qualquer pessoa de bom coração - as mesmas que sempre estão no partido de Mário - e que demonstra claramente os motivos da derrocada do mundo anglo-saxônico a que temos assistido nos últimos oitocentos anos desde a publicação da Magna Carta e seus inaceitáveis preceitos sobre as liberdades individuais.
Os nossos bielo-russos
Dezembro 1st, 2006O Rio Grande do Sul não existe e mesmo assim é um dos poucos lugares inexistentes do mundo onde seus habitantes guardam insofismável orgulho de terem nascido nele. É tão estranho como numa hipotética situação em que você visse na rua um grupo de bielo-russos ou de vanuatuenses batendo no peito e gritando - por qualquer motivo - o quanto amam seu torrão natal. Ah, eu sou gaúcho!, exclamam em qualquer ocasião meus conterrâneos toda vez em que o orgulho pátrio esteja em causa. Qual orgulho pátrio, exatamente? O de ter nascido no estado da qualidade de vida, no estado da revolução farroupilha, no estado do parque da Redenção, no estado do Grêmio, do Inter e do Xavante de Pelotas, no estado do churrasco gordo feito de vacas velhas (pois ninguém ignora que a carne boa, cota Hilton, segue direto para a Europa do mesmo modo que a carne humana que exportamos tão alegremente para outros pagos). É um fenômeno tão curioso que até mereceria um estudo científico - se de fato o estado existisse para que despertasse tal interesse em algum sociólogo.
É o estado da Participação Popular, da União de Todos, dos monstrinhos engraçados que protegem as crianças, do Mario Quintana e da maior Casa de Cultura Mario Quintana do Mundo inteiro. Mario Quintana, um bom poeta que o país pouco conhece e que os gaúchos apreciam pelos motivos errados. É o estado das mulheres bonitas e liberadas que se vestem mal como índias guaranis. É o estado em que se chama um trem suburbano e fedorento de metrô. Em que carroças com animais esquálidos, seviciados e famintos transitam em meio aos carros atrapalhando o trânsito - pois é um pecado tirar o trabalho de um pobre. É o lugar onde todos têm uma aguçada sensibilidade social e conversam apaixonadamente e aos berros sobre política nos bares, enquanto bebem, bebem e bebem da pior cerveja produzida no país. Que, ao contrário da crença popular - e do comercial engraçadinho de tempos atrás - só não é exportada porque é intragável - coisa que só gaúchos e porcos (e nessa matéria posso opinar) são capazes de beber. E aos cântaros.
E ai de quem falar mal desse portento da inexistência planetária! Artérias saltarão dos colos inflamados e olhos sairão das órbitas dos gaúchos ofendidos, vermelhidões furiosas nos rostos, garrafas de Polar - tri-gelada, néam - voarão até os palcos dos artistas que cometerem heresia tal.
À pergunta sobre qual contribuição deram os gaúchos à humanidade para tanto orgulho resta um silêncio constrangedor. Nenhum grande cientista, nenhum grande escritor, nenhum nobel de medicina ou verdadeiro mártir da liberdade, nenhum político importante que tenha chegado ao poder pelas vias legais. E isso que este é o estado da Legalidade, vejam só.
O político que capitaneou o tal movimento da Legalidade, venerado por estas bandas mesmo sem jamais chegar à presidência (ver artigo abaixo), era um notório comedor de cocô: em sua passagem pelo governo do estado, além de miséria para os professores com suas brizoletas, apenas produziu discursos inflamados e vazios e uma imensa dívida pública que ainda hoje gera muito lucro aos seus credores e pobreza aos gaúchos. Sua aclamada oratória, uma sucessão de platitudes e diatribes inúteis, foi uma das grandes responsáveis por incitar os militares ao golpe que terminou provando-se uma medida extremada para um perigo puramente retórico. É claro que o populismo criollo de um Brizola ou de um Olívio Dutra são produtos de seu meio. Sem ouvidos que lhes dêem crédito, políticos dessa laia não prosperam. Apontar como culpado apenas o aspirante a ditador é como incriminar o esterco bovino e as vacas pela proliferação de moscas.
Além dos uruguaios, ninguém sabe onde fica o Rio Grande do Sul. Mas os vizinhos ao sul têm sobre nós a infinita vantagem de terem consciência de que não existem. E têm Juan Carlos Onetti, Artigas, Quiroga, Bartolomé Hidalgo, Juana de Ibarbourou, os irmãos Saraiva e mulheres que sabem se vestir para esfregar em nossas fuças orgulhosas.

Uruguaia típica.

Gaúcha pilchada.
