O Porco Preto :: Você é um labrego e sabe disso

O Porco Preto

A coprofagia presidencial

Novembro 27th, 2006

Que todo presidente mais cedo ou mais tarde come cocô é algo de domínio público e não vamos discutir a veracidade de tal informação. A coprofagia, mesmo em presidentes, é um fato louvável por si, qualquer porco saudável pode atestar. Essa prática, como veremos, é muito disseminada entre os porcos e os presidentes por motivos distintos, mas igualmente nobres.

Alguns porcos, por uma questão de reciclagem de nutrientes, adotam essa prática. Quando sua mamãe lhe dizia “Coma tudo, Armandinho, pense nas milhões de crianças que não têm um prato de sopa de morcelha tão gostoso como o seu neste mundo e passam fome.”, você jamais pensaria que, pelo exato mesmo motivo alguns porcos comem, excretam e devoram suas excreções. A fome no mundo.

Este já não é o caso dos políticos guindados aos píncaros de nossas vidas republicanas que adotam a prática por motivos inconfessáveis que deslindaremos nas linhas a seguir em nome do mais alto interesse público: presidentes, ao contrário de outros políticos, estão sempre sob o escrutínio da imprensa e não podem de maneira alguma pular a cerca, sendo obrigados a conviverem maritalmente com suas digníssimas primeiras damas e só. Imagine-se o caro leitor (e a cara leitora) nesta situação desconfortável e semi-abjeta. Bill Clinton, após ser flagrado funfando sua rechonchuda estagiária quase teve seu mandato cassado e, desde que o bravo e honrado juiz Kenneth Star cassou-lhe o direito de pervadir gordinhas sorridentes nos recônditos do salão Oval, o saudável saxofonista do Arkansas adotou o estilo coprófago de vida da maioria de seus antecessores. George W. Bush, vitorioso na corrida para a Casa Branca no sufrágio subseqüente, era já um amante da prática e já há seis anos nos orgulha com seus atos, tendo sido referendado nas urnas recentemente devido a eles.

No Brasil a lista é grande , mas nos ateremos aos casos mais conhecidos. Getúlio Vargas, o primeiro de nossa lista, adotou o estilo de vida coprófago assim que amarrou o cavalo no obelisco. O general Dutra, seu sucessor quinze anos - que passaram voando - depois, reabriu a economia brasileira para que, além do produto nacional, que ingeria diariamente, pudesse também saborear os novíssimos Shit Flavoured Cereals*, que o boom industrial norte-americano começava a produzir. Juscelino, que só adotou a prática depois de flagrado pela mulher, dona Sara, em suspeição de conúbio com duas normalistas mineiras, conseguiu construir nossa novíssima capital graças à rápida adoção desse hábito. Que dizer então de Jânio Quadros? O homem era o orgulho dos coprófagos do mundo!

De João Goulart, apesar de farto estoque de puladas de cerca, notórias e registradas, sabe-se que era coprófago por esporte, um pouco de spleen existencial e, certamente, por ser dotado de um refinado e raríssimo paladar. Seus sucessores fardados, sem exceção, deleitaram-se por mais de vinte anos com a iguaria. José Sarney, que além de presidente é membro da Academia Brasileira de Letras (outra notória confraria de coprófagos de que falaremos outro dia), adotou o hábito já alguns dias antes da morte de Tancredo Neves, nosso adorável ex-futuro coprófago que morreu de uma infecção intestinal. Fernando Collor nunca abandonou o hábito e, desta feita, tenta difundí-lo também no congresso . Fernando Henrique Cardoso jamais poderá ser acusado de ser um parvenu a este clube. Sua natural predisposição à coprofagia veio em belíssima hora e provou-se muito necessária em ocasiões como a em que criou a paridade real-dólar e depois, quando corajosamente instituiu o câmbio flutuante e dispendeu vários bilhões de dólares defendendo nossa moeda.

E Itamar Franco, algum incauto pergunta: O presidente Itamar Franco, apesar da aparência que poderia denotar uma queda por tão nobre atividade, não teve primeira-dama, vivia cercado de belas mulheres, debelou a inflação, reinstituiu a produção do Fusca, comandou o país nos únicos 3 anos em que se cresceu a mais de 5% ao ano nos últimos 25 anos e foi o único presidente capaz de pôr Antônio Carlos Magalhães e outros políticos honoráveis do mesmo quilate em seu lugar de direito.

Alguns presidentes ou assemelhados, como Getúlio Vargas**, Costa e Silva**, Emílio Médici**, Ernesto Geisel**, Mao Tsé Tung ou Fidel Castro, instituíram em seus tempos normas democráticas e igualitárias que universalizaram a coprofagia de que sempre foram praticantes.

Fidel Castro, o único da lista ainda na ativa, tem sido especialmente eficaz nisso. Os cubanos, que comiam um pouco de cocô quando Fulgencio Batista governava, agora o tem à disposição todos os dias e fartamente. Um orgulho de governante, preocupado com a ecologia e com a preservação dos recursos naturais do planeta.

No Brasil, país em que o atual presidente ainda não chegou à eficiência de seu par ilhéu, todo dia pela manhã antes do batente nosso amado mandatário olha para sua estimada esposa e pensa em como seria bom que todo brasileiro tivesse o sagrado direito a três pratos diários de cocô. E que só nesse dia ele encostaria a cabeça no travesseiro e diria para sua primeira-companheira “Nunca antes neste país!” e dormiria tranqüilo.

*Expressão roubada de Mme. Distímica, uma das donas deste respeitável portal.

** Gaúchos de, respectivamente: São Borja, Taquari, Bagé e Bento Gonçalves. Em breve o Porco Preto falará de temas candentes como a coprofagia, a zoofilia e o autismo gaúchos. Acompanhem.

É proibido relinchar mais alto que os gaúchos

Novembro 24th, 2006

Para tudo no estado da Participação Popular se usa alguma frase do Mario Quintana. Quintana, a pobre puta que qualquer professora de Coronel Bicaco cita aos cântaros com a mãozinha balouçante fedendo a bergamota; apertando o peito flácido para dizer tudo com mais propriedade; com os olhinhos semi-cerrados para dar melhor vazão ao suco lacrimal. Porco Preto, proxeneta ocular da História, também faz as suas:

“Era uma vez um general burro. Tão burro, que os outros generais notaram…” (por ocasião da escolha do sucessor gaúcho do gaúcho Médici).

“Lembro que certa vez encontrei com seu Zé na rua. Como bons gaúchos, paramos, relinchamo-nos, abraçamo-nos…”

“Ó, Maria é uma moça culta. Sabe citar autores e até usar ponto-e-vírgula!”

De meus ossos fareis cinzeiros

Novembro 18th, 2006

Suas crianças cresceram rápido e nisso nada há de espantoso, dado que todas as crianças crescem muito rápido ou todos os adultos envelhecem celeremente, a opção que lhe pareça mais literária. O fato é que, vista de perto, a família soava verossímil demais.

O pai, que é quem nos interessa nesta história, era desses homens que se descobrem sùbitamente rejuvenescidos e joviais às portas da sexta década de vida. Conhecera a mãe, vinte e tantos anos mais nova, pouco depois de se desquitar de uma argentina grosseira que não depilava as pernas nem o buço, não podia ter filhos e vivia reclamando de Porto Alegre e das maneiras rústicas das pessoas do lugar.

Compraram uma casa em Ipanema a uma quadra do rio assim que o médico diagnosticou a gravidez da mulher. Por alguns anos, enquanto chegavam mais crianças, quatro no total, e o escritório prosperava, ele se desdobrava na idéia de que, além de pai, deveria ser o avô dos próprios filhos. Contava-lhes histórias de sua própria autoria, montou uma pequena oficina nos fundos da casa apenas para consertar-lhes os brinquedos quebrados, aprendeu rudimentos de eletrônica em revistas especializadas e bolava brinquedos personalizados para os filhos, nunca ralhava com eles, atrevia-se, enquanto pôde, a participar de todos os folguedos infantis que inventavam. Chegou a quebrar o pé numa partida de futebol em que o mais velho - e mais afoito - dividiu a bola com o pai com mais força do que seria de se esperar numa pelada caseira. Adoravam o homem e mesmo quando os colegas o confundiam com um avô, na porta da escola, nunca deram bola para isso. Menos a caçula, que odiava quando os colegas caçoavam da idade avançada do pai.

Nos verões ele enchia a Marajó cinza de crianças, víveres e dois cães pastores e partia rumo ao litoral, abandonando o escritório nas mãos dos empregados pelos três meses que duravam as férias dos filhos. Duas ou três vezes, quando os fui visitar na casa de praia, em meio às baforadas da roda de pôquer, ele pedia silêncio para que não acordássemos as crianças, ainda que na última vez duas das crianças estivessem jogando conosco e já estivessem em idade de beber e fumar - o que faziam com alegria - e as outras duas crianças estivessem na festa na danceteria vizinha.

O filho mais velho, apanhado e preso duas vezes queimando maconha com os colegas nos arredores da faculdade, formou-se em jornalismo há pouco mais de seis anos. Depois de meses desempregado e renitente em abandonar a cidade que tanto amava, mudou-se para São Paulo e trabalha num portal de Internet desde lá.

A mãe morreu de um mal fulminante e não diagnosticado no atestado de óbito, pouco depois da formatura do primogênito. A menina mais velha casou-se com um argentino que conhecera quando tinha doze anos num dos veraneios com a família. Mora num subúrbio de Buenos Aires num condomínio dos anos 70 e nunca mais veio à cidade, nem nas festas. Numa das fotos que ele tirou com o primeiro neto os prédios perfilados ao fundo lembram um condomínio do Leste Europeu. A segunda filha, bióloga, estava nalguma expedição do Green Peace na Nova Zelândia, segundo se soube depois.

Acompanhei o enterro ao lado da caçula, semana passada. Quando empurraram o esquife para dentro do carneirinho e iniciou-se a calafetação do jazigo, sem qualquer emoção aparente a filha estendeu a mão para mim e agradeceu minha presença. Ofereci-lhe uma carona que ela agradeceu e dispensou com um sorriso apagado. Seguimos cada um para um lado enquanto os coveiros concluíam o serviço.

Entrei no carro e, antes de dar a partida, apanhei o bloco de anotações e rabisquei: “Ele parecia o monge das páginas iniciais da Viagem Sentimental: estava no mundo só para guardar lugar para alguém”.

Só para cacetear meus queridos conterrâneos

Novembro 17th, 2006

Yeda na Economist:

Yeda na Economist

Tatcher na Economist:

Thatcher na Economist

Confidências porcinas

Novembro 15th, 2006

Não costumo falar muito de mim e nem era o objetivo deste espaço o de rabiscar qualquer outra coisa além das minhas impressões sobre a espécie de vocês, mas desde uns tempos para cá, com a evolução do glaucoma que desde a mais tenra idade se alimenta das minhas luzes, tento ser um porco preto menos iracundo e mais sociável. Mas isso sempre se prova mais e mais exasperante. Explicarei. Sim, esta foi uma sucessão de períodos lamentáveis e choramingas. Fim com eles. Passou.

Hoje à tarde um gentil amigo enviou-me um desses vídeos que pululam ultimamente na Internet, uma recriação mal-feita de um filme por que nutro alguma simpatia, o Matrix. A pantomima chama-se Mediatrix e se vale de um expediente ordinário e reprovável que é o de substituir os diálogos originais por outros, ao gosto do rastaquera que se quis editor de obra alheia. E o resultado? uma obra, no sentido escatológico do termo: Abandone toda a esperança, ó Catulo da Paixão Cinematográfica que me lê.

Culpando uma rede de televisão por todos os males do planeta, da galáxia, dos tempos dos tempos e de todas as pragas bíblicas, o editor desta contrafação fílmica tenta provar que todo espectador, como numa horrível Matriz, é manipulado. E como faz isso? Manipulando obra alheia. Usa do expediente que crê reprovável como sua pedra de toque argumentativa.

Mas não faltará pacóvio para achar tal disfunção stalinista e incongruente válida e louvável: o que importa é a mensagem. Já antevejo os comentários chorosos nas lancherias gaúchas: ” Bãin, cara, porque não tivemos essa idéia antes? Geniaaaaal! Tu viu como o Neo parecia mais apavorado ainda com o MONSTRO GLOBAL? Puta-bem-sacaaado, néan?”

Mas a vida continua aos tropeços para todos e para mim também. No momento, só penso em me acostumar com minha nova vida de quatro-olhos. Sim, é horrível, escusado dizer.

Porco de Óculos

PS: O uso obrigatório de um par de óculos muda a vida de qualquer pessoa, imagine a de um porco. Para celebrar essa mudança, povoarei aos poucos a lista de links ao lado com as leituras que mais me divertem na rede. Se ainda sobrou alguma.

PS2: Minha dificuldade com esses assuntos tecnológicos é infinita. Quem mais demoraria quase cinquenta minutos tentando posicionar uma imagem? Desisto em definitivo. Ela fica como está.

Ode à Alegria

Novembro 10th, 2006

Semana passada, enquanto passeava a pé pelo centro de uma cidade estrangeira, escutei as notas de uma melodia que conheço e amo desde a infância. De um acordeon uma moça franzina de óculos de aros finos e vestida num terno de tom pastel e amarfanhado dedilhava, nota por nota, compenetrada, sem cometer um mísero erro, o primeiro movimento da Nona Sinfonia de Beethoven. “Allegro ma non troppo, un poco maestoso”, pensei.

Ninguém mais parara para escutar a acordeonista: ou bem ninguém achava algo de novo em se ouvir uma sinfonia tocada por uma alma amarfanhada ou bem todos tinham muita pressa ou bem não fosse de bom tom - pelo menos em tais paragens - ouvir-se a um músico de rua.

Terminada a apresentação, abri minha carteira e entreguei-lhe uma dessas novas cédulas de cem Euros comemorativas ao segundo milênio do nascimento de Agripina Calpúrnia, a proconsulesa romana casada com Lúcio Valério Lucano procônsul na Britânia entre 122 e 160 dC. A moça sorriu e agradeceu, perguntou-me se gostaria de alguma música em especial. Pensando em algo simples, pedi-lhe que tocasse a “Stabat Mater dolorosa” de Pergolesi, no que fui imediatamente atendido. “Só não farei as vozes”, ela disse. Perfeito, retruquei.

Afastei-me da cena ainda antes de terminar a apresentação e desejei-lhe sorte, pois precisava ainda resolver o assunto que me levara até o estrangeiro. No quarteirão seguinte um rapaz segura meu braço e estica um folheto. Ajude a associação dos surdos. Aceitamos qualquer valor.

Pensei de imediato em Beethoven, Fauré e Smetana. Não há mais vontade de superação. Todos se acomodam. Se Beethoven tivesse nascido nos dias de hoje, quando completasse os 32 anos que lhe trouxeram a surdez definitiva certamente migraria para a fila do sopão. E a Ode à Alegria teria de esperar um sambista da Mangueira nascer para ser escrita.

A vida é uma mulher que não sabe se vestir

Novembro 8th, 2006

Sabe aquela alemoa loirinha, magrinha, igual à Giselle Bündchen? Sim, ela, a loirinha magrinha e bonitinha, com iniciais maiúsculas - todo mundo conhece várias assim. Ela podia ser linda, e é, mas não sabe se vestir. Por quantas dessas se cruza num dia normal nos centros de cidade? Você olha para ela a caminho do trabalho na manhã sonolenta,e tenta esboçar um inútil sorriso, dá de ombros e segue em frente dizendo com seus botões “ela não sabe se vestir, ela não sabe se vestir”.

Não que uma alemoa loirinha ou um japonês estrábico ou uma armênia albina importem a um porco preto. Um porco é um porco é um porco. Mas, por tudo quanto é mais sagrado, ela não sabe se vestir!

Viverá sem o saber, ignorará detalhe por detalhe qualquer tipo de convenção que a tornaria a mulher mais desejável do mundo aos olhos até do japonês estrábico e afeminado ou da armênia albina e lésbica, mas ela não sabe se vestir e só por isso todas as possibilidades da sua triste vida são naufrágio.

Correrão os anos como o rio de Heródoto, terá filhos e os amamentará da mesma forma que as porcas pretas amamentam os porquinhos pretos do amanhã. Quando morrer, a família velará a pobre senhora com roupas impróprias, excessivamente maquiada - pois eles também não sabem se vestir.

E voltará ao pó como veio, desperdiçada: Uma linda moça que era um poço de porvires e agora é só aquele amálgama de carne e ossos sem vida sobre a mesa de mármore do necrotério. Um amálgama gelado e mal-vestido.

O autismo gaúcho

Novembro 6th, 2006

Só o autismo social dos gaúchos pode justificar a crença numa pesquisa dessas por parte de gente que, alfabetizada, devia usar a cabeça para pensar um pouco, além de deslizar os olhos por letras encadeadas. Vamos aos fatos:

A pesquisa, que se quer científica, sugere que trinta e dois por cento dos gaúchos compram pelo menos um livro por ano. Isso, numa população de dez milhões de pessoas dá três milhões e duzentos mil consumidores, maior que a população do Uruguai e Vanuatu inteiros. Aplicando todos os números, que estimam que cada gaúcho consome 5,5 livros por ano, em média, tem-se o espantoso - e autista - número de cinqüenta e cinco milhões de livros vendidos por ano somente no estado. Pois é.

Isso não de se espantar no estado que já foi o “estado da participação popular” e que é o fiel depositário de um banco estatal que gera um bilhão de reais de prejuízo por ano, mas é “Melhor por que é nosso”, e em que tudo, do churrasco às mulheres, do pôr-de-sol no Guaíba à maior Ponte Sobre o Guaíba do Mundo, é o maior e melhor.

Autismo é o nome da enfermidade. Voltaremos a falar sobre isso em breve, enquanto a lei do Azeredo Mensaleiro Valeriodutano não banir de vez a liberdade de expressão, a última coisa com algum valor que nos resta no país dos vira-latas.

Falou o repórter Porco Preto, proxeneta ocular da História.